quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

BAGUNÇA


Fico lendo e escrevendo
o meu quarto é bagunçado
tem papel por todo canto
mil livros por todo lado
sendo casa de escritor
que fala de vida e amor
é meu mundo desarrumado

Vocábulos entranhados
rimas um tanto sem graça
versos atirados no ar
vejo um pássaro que passa
gorgeia no meu ouvido
fala que sou distraído
Zé Ninguém de minha raça

Palavras entrecortadas
rabiscos desconhecidos
sorrisos amarelados
alguns loucos improvisos
letras amarfanhadas no ar
aquarelas pra desenhar
as cores do paraíso

Fotografias sorrindo
volumes entreabertos
capítulos sublinhados
alguém já os leu decerto
papéis rasgados no lixo
traços de um feio bicho
sedento lá no deserto

Copos no chão esquecidos
cotonetes bem usados
notas fiscais espalhadas
velhos contos rascunhados
três ou quatro calendários
livros enchendo armários
já bastante entulhados

Três frases inacabadas
o Papai Noel descansando
dois gatinhos empalhados
um macaco se coçando
um suave curso de rio
foi lá onde o palhaço caiu
e viu as araras voando

Tem fragmentos de murmúrios
beijos estalados no ar
olhares apaixonados
pessoas tentando cantar
gente tirando soneca
loiras jogando peteca
pássaros querendo voar

Se arrumo tal bagunça
impondo ordem no local
vem uma moça bonita
no seu dengo de animal
me abraça carinhosa
lúbrica, doce, dengosa,
me faz beber café com sal

Então esqueço de tudo
desenvolvendo meu cordel
escrevo enquanto canto
que chegue o lixo até o céu
pois aqui o caos pode reinar
nos meus verso eu vou rimar
rapadura com beleléu

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

APLAUSOS


Eu aplaudo satisfeito
um novo dia surgindo
as flores desabrochando
mulher bonita sorrindo
já que toda mulher é linda
sua chegada é bem vinda
sorriam, vou aplaudindo

Bato palmas para a vida
para o belo entardecer
recrudesço meus aplausos
deveras feliz por rever
todas crianças brincando
logo depois estudando
e muita ciência aprender

Um casal enamorado
ao outro um respeitando
florestas imaculadas
idosos se abraçando
os políticos honestos
os demais apenas restos
a brisa meu rosto beijando

Enorme salva de palmas
à verdadeira amizade
ao amor nascido de Deus
a quem promove caridade
também preciso aplaudir
aos que não deixam de sorrir
malgrado a dificuldade

Meu aplauso bem sincero
para todo trabalhador
que na canseira dos dias
cumpre seu dever com amor
base perfeita da Nação
de qualquer país o coração
merecendo nosso louvor

Também não posso esquecer
de bater palmas contente
para o que se aposentou
e merece o viver decente
mas que é tão abandonado
ganha tão pouco, coitado,
seu salário é indecente

Meu aplauso fica no ar
para quem for merecedor
bato palmas sorridente
aplaudo com muito ardor
minha salva vai mais forte
pr'aquele que teve a sorte
de encontrar o grande amor

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

TERCEIRA IDADE


O VELHO DE ONTEM

Quem disse que quero viver
para alcançar a velhice?
Tanto quanto a mocidade
fui feliz na meninice,
pra ser um velho sem tesão
aposentado sem tostão
abdico dessa tolice

Nada de longevidade
com gosto de hipertensão
sofrendo mal de Parkinson
com safenas no coração
esquecido numa rede
de mulher não ter mais sede
perdendo aos poucos a visão

Ter doença de alzheimer
esquecer a própria história
porque ela vai causando
sua perda de memória,
e a tal qualidade de vida
é só recordação perdida
sem qualquer escapatória

Ser idoso é ter um peso
sobrecarregando a vida
as pernas vão afinando
a "coisa" fica descaída
já nem falso não levanta
nem o viagra adianta
bem, é hora de despedida

O corpo é um riacho de dor
músculos desaparecem
anda com dificuldade
os desejos esmorecem
torna-se azedo tal o fel
quer logo seguir para o céu
os que o amavam o esquecem

Porque nada lhe agrada
de tudo fica distante
até mesmo seus netinhos
viram copo de purgante
nada mais lhe dá consolo
não pode tocar em bolo
que viver angustiante!

Só resta esperar a morte
tem disfunções intestinais
nem percebe se urina
sofre de problemas renais
seu mundo perdeu o sentido
nem parece ter vivido
morre como os animais

O IDOSO NA ATUALIDADE

Espere aí, alto lá!
Tudo hoje é diferente
ser idoso sem saúde
é coisa de antigamente,
para ter massa muscular
é só todos os dias malhar
e ter uma vida decente

Fazer as tomografias
como forma de prevenção
que se faça o toque retal
coisa de homem, não machão,
rever o PSA todo ano
ter próstata sem desengano
tratar muito bem o coração

Procurar vida saudável
não ser glutão desvairado
que não sabe se controlar,
beber pouco, moderado,
pois chegar à obesidade
faz sofrer na mocidade
é um novo-velho cansado

Alimentar-se com fibras
dos alimentos integrais
comer as folhas, as frutas,
vitaminas e sais minerais
esquecer de vez frituras
deixar de lado gorduras
reduzir açucares e sais

Adeus pratos enlatados
porque contêm conservantes
glutamato monossódico
muito sódio e os corantes,
gordura trans nem pensar
engorda antes de matar
fica igual elefante

Faz caminhada diária
frequenta academia
pratica aeróbica
lê e escreve todo dia
a testosterona repondo
muito vigor vai ganhando
para o prazer e a alegria

Tem previdência privada
pois pensava no futuro
pra conseguir esse bônus
trabalhou muito, deu duro,
seu rendimento é decente
popou muito, foi prudente
seu dinheiro rendeu juro

Viaja frequentemente
da mulher acompanhado
resolve suas cruzadas
jamais é desmemoriado
se se casa novamente
dá vazão diariamente
ao velho sonho dourado

Aposentado saudável
corpo de adolescente
malha dia após dia
adoece raramente
e quando isso acontece
é rápido, desaparece,
coisa assim, de repente

Para quem se aposentou
e fica fazendo tolice
bebendo, se acabando,
se matando na velhice
deixe disso, a vida é bela
não caia na esparrela
de morrer de babaquice

Fuja do fundo de rede
faça palavras cruzadas
coma comida saudável
não deixe pernas paradas
praticando musculação
e resistência pro coração
as dores serão curadas

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

SAGA NORDESTINA

O sol nasceu para todos
contudo a sombra nem tanto
só coube ao nordestino
um pobre e rasgado manto
assim, os raios do Astro-rei
não obedecem essa lei
e lá queimam e causam pranto

Não creio nessa estória
que o sertanejo é um forte
é somente um esquecido
que ousou nascer no Norte
e muitos para sobreviver
fazem promessas pra chover
esperando mudar a sorte

Porém, anos após anos
chega o mesmo sofrimento
no tempo da estiagem
morrem a cabra e seu jumento
vem o Governo pressuroso
tentando ser caridoso
mas é só fogo de momento

O coitado do retirante
fica na mão do Deus-dará
seus filhos choram com fome
a mulher começa a lamentar
lá fora o sol inclemente
primo pobre da enchente
parece que o chão vai queimar

Esmurrar ponta de faca
ter o pão que o diabo amassou
fazer das tripas coração
viver instantes de horror
quanto mais passam os anos
aumentam seus desenganos
incrementando sua dor

Quando a seca esturrica
a pequena roça plantada
os açudes vão secando
fica a terra devastada
e como cego em tiroteio
tão indefeso e lá no meio
tem a vida ameaçada

Porém se cai muita chuva
e o inverno vira enchente
o sofrer se intensifica
nada fica diferente
é como se dessem vacina
ao invés de vitamina
a quem já se encontra doente

Tanto faz seca, enchente,
são duas calamidades
que estão sempre presentes
quase sempre, cedo, tarde,
que sina mais desvairada
que Região desolada
que tanta desigualdade

Falando sobre Nordeste
refiro-me ao campesino
nunca sobre políticos
que leva a vida sorrindo
pois dinheiro não lhes falta
alguns formam uma malta
como bandos de porcinos

Nunca dos comerciantes
ou jamais dos industriais
mas dos pobres sertanejos
que cultivam os milharais
só dependem do que plantam
tanto choram quanto cantam
nos açudes, nos matagais

Estes sim, são sofredores,
os esquecidos da Nação
que trabalham dia e noite
na nobre luta pelo pão
mas se tornam retirantes
uns pobres desafiantes
da natureza do sertão

Gilbamar de Oliveira Bezerra

sábado, 19 de dezembro de 2009

VOU ESCREVENDO

Vou escrevendo meus versos
debaixo da oiticica
ao abrigo dessa sombra
pensando comer canjica
mas não sou pretensioso
versejo porque é gostoso
não almejo rima rica

Palavras chegam voando
como aviões de platina
eu agarro cada uma
enquanto troco de rima
se ficar no céu é do santo
caindo aqui é meu canto
em rasgando é da menina

Não tenho qualquer pretensão
de ser poeta moderno
nunca fui de roupa nobre
nem mesmo sei vestir terno
boto a viola no ombro
e sob os restos do escombro
meu poema eu governo

Porque sou feito de pedra
cara feia eu não temo
risco de faca apago
os dois braços são meu remo
minhas pernas são de chumbo
eu me viro, me arrumo,
olhando a morte não tremo

Meus olhos são duas chamas
na vida pegando fogo
danço conforme a música
não entro liso no jogo
se paquero uma mulher
em vendo que ela me quer
nem me lembro mais do troco

Não nasci de sete meses
nem só nas coxas fui feito
não tenho papas na língua
não escondo meus defeitos
só quero andar na linha
pra mim é canja de galinha
faço tudo do meu jeito

Tão depressa pass'a vida
parecendo um furacão
quando menos se espera
vem um infarto no coração
se alguém chega à velhice
pensa, triste, "que tolice
vivi somente ilusão"

Melhor, então, aproveitar
essa quimera de viver
as ilusões são ternura
que só amenizam o sofrer
vamos fantasias gerar
e mergulhemos no sonhar
para semear o conhecer

Desprezemos preconceitos
amemos o entendimento
ajudemos quem precisa
apagando o sofrimento
conjuguemos o verbo amar
pois quando a vida terminar
por que arrependimento?

Eu choro porque sou homem
compreendo quando perco
tanto piso em sala chique
quanto ando no esterco
tenho grande admiração
por quem costuma dar a mão
a quem todos dão desprezo

Se alguém não me respeita
esse deixa de existir
amizade é via dupla
ser bom amigo é dividir
apego e consideração
os momentos de comunhão
é bom com o outro repartir

Gilbamar de Oliveira Bezerra




terça-feira, 15 de dezembro de 2009

SEM PERU NEM CEIA


Fico pensando no Natal
das famílias sem dinheiro
uma só cuia de farinha
falta pão desde janeiro
feijão é artigo bem raro
o jabá agora tá caro
arroz sempre de terceiro

Não tem árvore de natal
nem guirlanda na parede
só uma bola sem brilho
pendurada numa rede
encontrada lá no lixo
no meio de lama e bicho
morrendo de fome e sede

Ninguém vai ganhar presente
o dinheiro só dá pra comer
- e olhe lá, nem todo dia -
Papai Noel nunca vai ter
se não há pão sobre a mesa
sim, não vai ter, com certeza
talvez nem café pra beber

A noite vai chegar bem cedo
muitos passarão sorrindo
desejando "Feliz Natal"
alguns de "bêbo"caindo
mas nas famílias pobres
enquanto comem os nobres
a fome seguirá fluindo

Em todo lugar tem festa
Os ricos se esbaldarão
comendo até se fartar
derramando vinho no chão
sobrará muita comida
e depois de tanta bebida
de tão cheios vomitarão

Para os pobres coitados
que não terão peru nem ceia
só restarão as tristezas;
até os presos da cadeia
terão um jantar decente
mas pobre nunca foi gente
vive com fome e na peia

Na sua noite de Natal
depois de abrir o presente
com muitos abraços e beijos
lembre que há tanta gente
que nessa época chora
e ajoelhada implora
pra ter um Natal decente

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

FILOSOFIA DE CORDEL


As linhas da minha poesia
são como rastros de cometa
num carretel desenrolado
medindo a testa do planeta
amarrando estrelas no céu
os aros de um lindo anel
apontamentos de caneta

Enroscam-se nos meus cabelos
Diluem-se no pensamento
embaralhando meus reflexos
medem as distâncias do tempo
enforcam bandidos safados
capando sujeitos tarados
separando gozo e tormento

Plantam arrozais lá na China
com elas atravesso o Nilo
faço pontes de amizade
estico as patas do grilo
vou depressa pra Alemanha
invento que doce é lasanha
compro alegria no quilo

Como se andasse no varal
desfazendo o laço da ema
parecem cordéis trançados
exibindo lindos poemas
enfeitando todos os versos
um tanto sem jeito - confesso
fazendo da arte meu lema

Juntando um monte de cores
deixam o azul ficar vermelho
pintando as obras de arte
com seu reflexo no espelho
borram tudo de amarelo
contudo o feio se torna belo
depois de rezar de joelhos

Esse catavento de versos
como num passe de magia
toca música numa lata
transforma lixo em poesia
encontra flores na sarjeta
manda pato bater punheta
plantando muita alegria

Como águas tranquilas do rio
o cordel é essa filosofia
que faz da vida uma festa
de graça, humor, simpatia
no semear da gargalhada
embora seja ruim a piada
devastando a melancolia

No mais essas linhas, afinal,
enternecem e tremem minha mão
circulando por todo o corpo
como artérias do coração
sem elas - que vida vazia!
meu castelinho ruiria
porque poesia é vida, é pão